Crises podem causar até AVC, alerta especialista; saiba quais os sintomas

Cerca de 6% da população tem enxaqueca, uma doença cuja causa ainda é pouco conhecida pela Ciência e que é facilmente confundida com dor de cabeça pelas pessoas. No entanto, a cefaleia ou, simplesmente, dor de cabeça, é apenas um dos sintomas desta doença crônica, genética e hereditária.
Para explicar melhor os aspectos da enxaqueca, o Reporter MT 
conversou com o neurologista Pedro de Miranda. Com base em estudos divulgados pelas Sociedades Brasileira e Internacional de Cefaleia, o médico afirma que a enxaqueca, também conhecida como migrânea, se caracteriza basicamente por ser um dor unilateral, geralmente frontal, ou seja,  pessoa sente dor em um lado da cabeça, por isso o nome migrânea, que vem do grego e significa metade da cabeça.
Além da dor de cabeça, a enxaqueca também tem como sintomas a intolerância à luz, ao som, aos odores e até mesmo ao toque no couro cabeludo, além de enjoos e náuseas. No caso da dor de cabeça, a dor pode ser tão forte e persistente, chegando a perdurar por dias, tornando a pessoa temporariamente incapaz.
Relação com doenças cardíacas
Essa dor forte também tem como característica a pulsação ou sensação de que a cabeça está latejando. Isso ocorre porque a enxaqueca tem muita ligação com o sistema cardiovascular. Durante uma crise de enxaqueca, ocorre o fenômeno da vasoconstrição, que é a compressão das artérias. Logo em seguida, elas se dilatam e começas a pulsar, causando uma dor latejante muito forte.
Miranda explica que dentre os fenômenos cardíacos ligados à enxaqueca está a disautonomia, que é quando a pessoa fica pálida, tem queda de pressão, começa e suar frio, podendo até desmaiar. Além disso, outro fenômeno que pode ocorrer é o chamado forame oval patente, que é uma má formação cardíaca, um buraco entre os dois átrios do coração. Pessoas com esse problema, geralmente, desenvolvem enxaqueca com aura, diz o médico.  
Existem sete tipos desta doença: enxaqueca comum, com aura, vertigem migranosa, basilar, hemiplégica, oftalmoplégica e enxaqueca sem dor. A mais enxaqueca comum é a mais frequente entre os pacientes, é o caso tipicamente confundido com dor de cabeça, que não apresenta os demais sintomas.
Outro caso comum é a enxaqueca com aura, que é quando a pessoa recebe um aviso visual de que terá uma crise enxaquecosa. Esse sinal visual, a aura, ocorre como uma mancha escura na vista, um embaçamento ou embaralhamento da imagem, riscos de luz parecidos com raios.
Miranda explica que dentre os fenômenos cardíacos ligados à enxaqueca está a disautonomia, que é quando a pessoa fica pálida, tem queda de pressão, começa e suar frio, podendo até desmaiar. 
A enxaqueca vertigem migranosa, mais conhecida como enxaqueca vertiginosa, também é uma das mais populares. É do tipo que a dor vem acompanhada de vertigem, sensação de tontura e rotação.
Comorbidades
É comum que pessoas que sofrem de enxaqueca desenvolvam outras doenças, as chamadas comorbidades, como depressão, ansiedade, fibromialgia, intestino irritável e, eventualmente, epilepsia.
Diagnóstico e tratamento
O neurologista Pedro de Miranda é enfático ao afirmar que “não existe exame para diagnóstico de enxaqueca. É ilusão achar que tomografia, ressonância ou eletroencefalograma vão dar o diagnóstico de enxaqueca. O diagnóstico é clínico”. Segundo ele, não existem sinais físicos da doença, que só é descoberta após muita conversa entre o médico e o paciente e o conhecimento do histórico de saúde da pessoa e da família, já que o mal é hereditário.
Além disso, Miranda alerta para os chamados “novos tratamentos” ou “remédios novos”. Segundo ele, não existe remédio novo para enxaqueca. O último medicamento lançado pela indústria farmacêutica ocorreu no ano 2000, ou seja, há 16 anos.  
O tratamento para enxaqueca ocorre em duas vias: medicamentosa e mudança de hábitos. A via medicamentosa é de responsabilidade do médico, que, por conta da singularidade da doença, tem 30% de chances de erro. Por conta disso, Miranda ressalta a importância da conversa entre médico e paciente para saber se a medicação está surtindo efeito ou não. “Há necessidade do paciente queixar para o seu médico, ele tem que ter liberdade de falar: doutor, isso aqui não funcionou”, ensina.
É absolutamente vedada a automedicação. Isso vale para qualquer doença, mas, no caso da enxaqueca, que é facilmente vulgarizada e confundida com dor de cabeça, o alerta se dá por conta da gravidade da dor. Os analgésicos causam dependência, viciam e, com o passar do tempo, param de fazer efeito e, pior ainda, provocam o aumento da enxaqueca.
Mudança de hábitos
A enxaqueca exige alterações na rotina do paciente porque existem vários fatores que desencadeiam a crise, os chamados “gatilhos” da doença, ou seja, a única forma de prevenir que uma nova crise de enxaqueca venha é evitando esses gatilhos.
Dentre as medidas que o enxaquecoso deve tomar estão:
Praticar exercícios físicos.
Ter uma rotina diária de vida. “O indivíduo que é enxaquecoso vive bem quando ele tem rotina, quando ele tem hora para comer, hora para dormir, hora para acordar. Esse negócio de acordar cedo todo dia e quando chega o final de semana dorme até meio-dia é certeiro que vai ter crise”, alerta o neurologista.
Evitar alimentos industrializados que contenham glutamato em sua composição, como temperos prontos, molhos de tomate, ketchup, shoyu, embutidos, etc. “O indivíduo que é enxaquecoso tem que aprender a ler rótulo de alimentos industrializados para ver se tem glutamato”, ensina o especialista.
Evitar chocolate, melancia e melão. O porquê esses alimentos disparam a crise de enxaqueca ainda não é conhecido, mas já se observou a ligação deles com a doença.
Evitar estresse.
Evitar medicamentos que possam causar enxaqueca, o que deverá ser avaliado pelo médico.
De acordo com Pedro de Miranda, “a grande dificuldade que se tem não é medicar, é convencer o paciente que ele tem que mudar [...] É muito fácil terceirizar a responsabilidade toda para o remédio, só que só obtém o efeito do remédio e o efeito do remédio é parcial. Ele (paciente) quer obter um efeito integral? Então ele tem que mudar a rotina, levar um estilo de vida que se protege desse tipo de dor”, adverte o neurologista.